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10 junho 2012

Alentejo, anos 60. Memórias - 2º parte.




"Da zona do Algarve, mas propriamente de Odeceixe, Rogil, Aljezur, Maria Vinagre, também chegavam mulheres, que permaneciam na Herdade entre Maio e Junho, mas neste caso para trabalharem apenas na apanha do arroz e na monda. Ao contrário do povo do norte, estas trabalhadoras, instalavam-se em grandes casarões, e dividiam o espaço entre elas.
Também tinham por hábito efectuarem as refeições ao lar livre, e por vezes chegavam a ser perto de uma centena de fogueiras a arder, pois cada uma delas confeccionava individualmente os seus alimentos.

No mês de Agosto, para o final das mondas e início das ceifas, chegavam mais ranchos de gente, oriundos de Grândola e Santo André. Também estes se instalavam em grandes casarões, mas a sua forma de estar em comunidade era diferente dos restantes. O dormitório era dividido por biombos, e para a confecção dos alimentos recorriam a uma única fogueira em que cada um deles, colocava a cozinhar os alimentos numa panela de barro.  

Toda esta diversidade de culturas trazia uma grande animação á Herdade, e apesar do trabalho duro, aos sábados e domingos à noite, havia sempre baile, no qual todos participavam.
As sementeiras dos viveiros começavam em Março, e em Junho começavam as plantações em grandes canteiros com muros de 100 em 100 metros. As condições de trabalho eram muito difíceis, pois trabalhava-se com água e lama por cima dos joelhos, e na água, para além de conchas, existia uma grande variedade de bichos, desde cobras a saltérios, que por vezes provocam mordeduras dolorosas. Ainda me recordo de uma espécie de liquido, em pequenas garrafas, que utilizávamos para pôr nas pernas, ás vezes já em ferida."

D. Maria Edviges, assistente operacional

21 maio 2012

Com Salvador Dali... recordações.


No outro dia estava em casa dos meus avós e encontrei um jornal, já antigo. Perguntei à minha avó porque o guardava, e de seguida mostrou-me a parte de trás do jornal onde estava uma fotografia dos meus bisavós com Salvador Dalí e sua mulher, Gala. Pedi à minha avó, Maria Antónia Moraes, para me escrever um texto, com recordações e momentos divertidos que passou com Dali.

                                                                                             

“Desde que me lembro, Salvador Dali esteve presente na minha memória. Em 1940, tinha eu pouco mais de três anos, quando Dali e Gala, sua mulher, vieram a Lisboa. Sendo ele grande amigo dos meus pais, tinha pedido ao meu pai que o ajudasse no envio dos seus quadros para a sua primeira exposição em Nova Iorque. Esta vinda coincidiu com a Exposição do Mundo Português. Durante os dias que aqui passaram, estiveram em nossa casa e saíam com os meus pais. Foram descobertos por um jornalista, quando jantavam juntos na Exposição, e a fotografia foi publicada no Diário de Notícias.

Salvador, era amigo de infância de minha mãe. Os seus pais, amigos dos meus avós. O pai era o notário de Figueras, na Catalunha, e esta família era muito conhecida e respeitada. A irmã, Ana Maria, cresceu junto com a minha mãe, eram grandes amigas.

Um episódio na vida de Dali, quando era muito novo, em que, ele, Ana Maria e a minha mãe muito se divertiram, foi quando um jornalista de Madrid chegou a Figueras para  lhe fazer a sua primeira entrevista. Salvador chamou-as dizendo: «venham depressa, ajudem-me! Quero virar os quadros ao contrário, e vão ver como dou a entrevista e me divirto imenso!» Assim aconteceu e o jornalista não percebeu a brincadeira!  Até ao fim da vida deles, este episódio foi recordado.
    
No verão quando íamos passar um mês de férias a Calella de Palafrugell, onde estavam os meus avós paternos, sabíamos que uma tarde era dedicada a visitar Dali, em sua casa de Port- Lligat. Encantavam-me essas visitas! Ele recebia-nos com muita amizade e simplicidade. A tarde passava sem darmos conta. Lanchávamos no jardim. As conversas eram interessantes, parecia que tínhamos entrado noutro mundo.

 Dali, mostráva-nos os  seus últimos quadros, que ainda se encontravam no atelier. Tocou-me  intensamente  a «Última Ceia», que tinha acabado de pintar: a luz, que entrava pela janela, iluminava-o de tal maneira que me parecia  ver uma cena real. Tive o impulso de querer tocar com a minha mão nos mantos dos Apóstolos, e sentir a  sua textura entre os meus dedos. Também nos mostrava as maquetes das peças e jóias que fazia; algumas com movimento: relembro um vaso com borboletas a voar. A sua imaginação era imparável.


Connosco tinha sempre conversas normais, a sua atitude era sempre natural e agradável. Impressionava-me o seu bigode, todo levantado e rígido, graças a um fixador ou goma (nunca percebi como). Nas pontas colocava duas pequenas flores brancas. Numa das tardes, em que  me desenhou uma formiga no meu livro de autógrafos, tirando uma flor do bigode, disse-me: «queres ficar com esta flor como recordação?» Claro que quis! Ainda a guardo dentro do mesmo livro.

Outro episódio curioso: numa viagem a Paris , o meu pai encontrou-o por acaso no mesmo hotel onde se hospedava. Combinaram, tomar no dia seguinte o pequeno almoço juntos. Estavam no meio desta refeiçãoconversando tranquilamente, quando apareceram uns jornalistas para uma entrevista, que já tinham combinado. Dali convidou-os para se sentarem à mesa com ele. Nessa altura, chamou um criado e  pediu uma omelete, e disse ao meu pai: «espera, que já vais ver.» Quando lha trouxeram, transformou-se,  tirou o lenço do bolso superior do casaco, pegou na omelete e colocou-a no lugar do lenço, deixando todos estupefactos, assim começou a entrevista...   A meio desta, virou-se para os jornalistas e disse: «Estão-me a entrevistar, mas esquecem-se que aqui ao meu lado está um dos maiores poetas do nosso país».( referia-se ao meu pai, que nunca na vida tinha escrito um verso!)

Salvador Dali, entre amigos, tinha uma maneira de estar natural, apesar da sua genialidade.
Para mim é inesquecível , foi um privilégio tê-lo conhecido desta forma.”

Teresa Castel-Branco, 9º F


10 maio 2012

Alentejo, anos 50. Memórias - 1º parte.



Naquela altura (anos 50), apenas a minha mãe e o meu padrasto, já sabiam ler, logo quando alguém queria escrever uma carta, ou ler alguma notícia, deslocavam-se até à nossa casa. Para além disso éramos os únicos com telefonia, e por vezes a casa enchia-se de gente ávida por ouvir a rádio. Recordo-me do episódio, ocorrido nos anos 60, em que o Henrique Galvão, roubou o barco “Santa Maria”, e da enchente de gente que chegou para ouvir a notícia.
(…)
Perto da Herdade da Terça, junto à estrada de acesso a Alcácer do Sal, existiam duas tabernas e uma mercearia, local onde nos íamos abastecer de todos os bens necessários. Este local era conhecido por “Estalagem de Alberges”, e era ai onde se realizavam as festas, bailes, e até mesmo circos, frequentados por todos os habitantes dos montes vizinhos.
(…)
A Herdade era também povoada, no período de Inverno, por gente vinda do norte do país, para efectuarem trabalhos de cava das lamas. Estes trabalhadores chegavam em Outubro, e partiam para as suas terras em Junho. A maioria chegava sozinho, apenas quem trazia a família, era o homem que os chefiava, denominado de “moiral”. Tinham hábitos diferentes dos nossos, e tomavam as refeições ao ar livre, através da utilização de grande caldeira de cobre, suspensa por um ferro, onde por baixo da mesma era efectuado lume, para a cozedura dos alimentos. Também faziam o seu próprio pão de milho, pois não gostavam do nosso que era elaborado à base de trigo.

      D. Maria Edviges, assistente operacional

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A foto retrata as costureiras da aldeia de S. Cristóvão, Montemor-O-Novo, nos anos 50.
A menina é a autora destas memórias.

25 janeiro 2012

Os alunos "da polícia"



“Em Setúbal, em 1954, tive uma outra experiência muito linda. Chegada à escola, esperava que me destinassem uma turma quando o Diretor da escola nos entregou uma caixinha com papelinhos «para escolher com quem haviam de ficar os alunos da polícia».
Pensei que eram filhos de polícias mas logo percebi que eram meninos que andavam pela rua e a quem os polícias perguntavam que escola frequentavam. Se eles respondiam que não andavam na escola, a polícia ia falar com os pais e ameaçava que lhes retiravam o abono de família.
A turma que recebi tinha tantos alunos que nem sequer fui obrigada a apresentar serviço.
Os alunos, carentes de afeto e de possibilidades monetárias, recebiam de forma admirável toda a ternura que lhes era dada.
Havia muita fome e as escolas não tinham cantinas. Muitos alunos roubavam.
Um dia apareceu-me um aluno com um peixe grande para me oferecer, pelo que lhe perguntei se o pai era pescador, ao que me respondeu: - Não, professora. Eu roubei-o a um homem rico lá da lota para lhe dar a si.
Foi muito difícil convencê-lo a levar o peixe e que não devia fazer isso.
Os alunos eram obrigados a usar batas mas não havia dinheiro para os pais as comprarem, e isto não era só na classe chamada da polícia. Era geral.
Tempos bem difíceis, esses, mas valeu a pena os trinta e seis anos que vivi a ensinar e a amar as crianças.”
Antonieta 

ps-esta imagem, de finais dos anos 50, não está  diretamente relacionada com o texto.

23 janeiro 2012

Memórias dispersas




A professora Antonieta, com os seus 83 anos, é a minha consultora preferida para assuntos do ensino primário durante o Estado Novo e os anos 70 a 80 já em democracia.
Das muitas conversas, tem sobrado imensa informação solta de que tomo notas e que julgo uma pena perder-se. Algumas dessas notas transcrevo-as aqui, sob a forma de memórias dispersas que a própria reviu. Optou-se por manter o tom coloquial.
“No ano de 1952 exerci pela primeira vez a minha profissão de professora. Foi numa escola da Moita com uma 4ª classe.
As meninas frequentavam a escola da parte da tarde. De manhã eram os rapazes.
Os alunos podiam frequentar a escola primária até aos 14 anos, havendo por isso alunas com 11,12 e mais anos.
A ligação professora- aluna era na maioria dos casos muito complicada. Não havia à-vontade suficiente para a aluna se entregar. Sempre uma distância enorme.
Existia um silêncio obrigatório considerado o ideal para o ensino funcionar bem. Havia professores que recusavam a existência de tal distância, e os que a conseguiam ultrapassar com muito amor deixaram uma recordação maravilhosa nos seus alunos para toda a vida.”
(…)



“Ensinavam-se todos os aparelhos do corpo humano menos o reprodutor.
Certa vez, uma das alunas mais velhas faltou à escola durante uns dias. Quando regressou eu quis saber a razão das suas faltas mas ela só dizia que a mãe estivera doente. Á hora do recreio uma aluna veio-me dizer que ela faltara à escola porque tinha ajudado a mãe a ter um bebé e estava a mentir.
A verdade soube-a depois. O pai trabalhava de noite, or irmãos eram pequenos, estavam a dormir e a mãe pediu-lhe ajuda.
Falámos então na aula com todo o cuidado e simplicidade sobre o que ela tinha dito. Só uma aluna tinha visto nascer um bezerrinho.
No dia da vinda do padre à escola, ele perguntou-me o que tinha acontecido porque a mãe de uma aluna tinha dito que a professora tinha falado de coisas feias em vez de dar aulas.
Foi difícil mas valeu a pena. O próprio padre concordou comigo.”
 (...)
continua