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09 novembro 2008

Carroça com Telhado de Zinco, 1936

Esta fotografia teve honras de relato oral que se passa a transcrever: “Quando atingi a idade de ir para o liceu (Sá da Bandeira, Santarém) e não havendo meio de transporte público entre Vilgateira e Santarém, cerca de 14 km, o meu pai resolveu o problema comprando um burro e uma pequena carroça com telhado de zinco e cortinas de pano à volta.
O problema era ter de sair de madrugada, depois de o burro já ter comido a sua ração.
Como tínhamos de passar por algumas localidades onde residiam trabalhadores rurais, a nossa passagem, sempre à mesma hora, converteu-se no seu despertador, dado o barulho que a carroça com o seu tejadilho provocava.”
O que estes rapazes não terão sonhado com um Fiat 521…

26 outubro 2008

Anos 30 Foto de Família em Estúdio

Estas mãos que alternadamente punem e afagam e que teatralmente posam para a fotografia – as convenções de época são para ser cumpridas – seriam a única coisa que prenderia o meu olhar a este retrato não fosse a presença absolutamente fantástica da rapariga.
Os dois irmãos parecem ausentes. Nada no seu olhar me elucida acerca dos seus pensamentos.
O fotógrafo fez uma má escolha, ou demorou demasiado, o que também é possível. O mais velho poderá mesmo ter apanhado um puxão de orelhas. Ambos têm cara disso.
A ter acontecido, pese embora a aparente severidade do pai, foi a mãe a encarregar-se da tarefa. As traquinices de miúdos antes da pose, num estudo fotográfico, eram coisas de mulheres, são elas que se irritam com o facto de os laços ou as golas saírem dos seus sítios.
Teria sido pelo contrário o pai se o sucedido de desse nos momentos já de pose que antecedem a fotografia. Os homens parecem ser mais sensíveis às formaturas. O seu rosto um pouco tenso dever-se-á mais ao facto de não gostar de tirar fotografias, ou ficar tanto tempo imóvel no mesmo sítio. São as suas mãos que o dizem. Os próprios pés parecem preparar-se já para andar, se os virmos isoladamente.
O que me atrai neste frágil corpo de rapariga é o olhar, ou melhor, o rosto por oposição ao corpo rígido. A mão esquerda da mãe prende-a. As do pai estão ausentes dessa tarefa pelos motivos já vistos.
Há neste rosto mais do que uma simples contrariedade, o que para uma criança seria de qualquer forma muito. Nada neste corpo se move para fugir ao que a contraria. Na cara, tudo. Ou antes, tudo nesta cara à excepção dos olhos. Eles sonham já. Será essa a sua fuga.
O NÃO que o nariz e os lábios dizem, com uns olhos assim, talvez não dure muito. Não me admiraria nada que toda uma vida se encarregasse disso.


As famílias da classe média (ela é professora primária, ele pertence aos quadros médios dos Caminhos de Ferro Portugueses) deslocam-se ao estúdio fotográfico para o retrato. As mais abastadas mandam vir o fotógrafo a casa, ou têm elas próprias um familiar “excêntrico” com gosto e posses para a máquina… Das menos afortunadas não sobram na grande maioria das vezes grandes registos.)

Mãe com criança, 1932

Esta fotografia fascina-me pelo casulo de luz que a envolve. Portugal, no início dos anos 30 não era propriamente um país sem problemas…
Para esta mãe, nesse momento, nada mais existe.


“Em tudo o que fazia deixava sempre um fio solto, despercebido, por vezes soterrado pelas coisas, mas sempre, em qualquer parte, um fio vindo do lado de dentro, o único caminho possível, talvez, para regressar.
Um fio solto como um objecto antigo, uma folha seca, no meio de todos os outros um livro com uma página dobrada.
Há certas coisas que só as mulheres vêem, e sabem. Aprenderam-nas tecendo o tempo, sem pressa, durante todo este tempo em que foram encerradas.
Foi através dos seus fios que a maior parte dos heróis antigos conseguiu regressar a casa.”